Letra & Música 01/09/2012

Prosa poética em dias de guerra

Manoel Ricardo de Lima lança pela 7 Letras o inédito Jogo de varetas e reedita a novela As mãos
JÚLIA STUDART / DIVULGAÇÃO
Manoel Ricardo: "Não faço distinção entre poema e prosa"
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A edição de dois livros ao mesmo tempo é um evento raro para qualquer escritor, ainda mais para um que preserva com a escrita uma relação de lentidão, de profundidade entre linguagem e pensamento. O que dirá então do lançamento de dois livros em prosa para um poeta? Todavia, no caso em questão, os livros Jogo de varetas e As mãos, de Manoel Ricardo de Lima, significam nem tanto a descoberta de nova vocação literária, a experiência de inédito arroubo criativo, quanto a convergência do trabalho paciente sobre a literatura.


“Não faço essa distinção entre poema e prosa, pra mim eu trabalho com a construção de imagens e ela se dá na composição de uma peça”, fala Manoel.


As mãos, por exemplo, teve a primeira edição publicada pelo atualmente professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2003, quando o autor piauiense ainda lecionava e morava em Fortaleza. Ganhou ainda 2006 reedição bilíngue. Um livro, pois, já com certa história, que inspirara também criações em outras linguagens. No entanto, a edição da inédita coletânea de narrativas Jogo de varetas, seguida da ideia da terceira edição da novela, demandou para o autor a reescrita da obra.


Os traços que assemelham as duas obras, além do projeto gráfico da artista portuguesa Rachel Caiano, é a prosa poética de Manoel. Fragmentária, composta de textos curtos, que se enreda em vírgulas, com metáforas incisivas e vagas ao mesmo tempo, quase sempre a caminhar sobre um terreno desolador. A guerra também é comum.


Enquanto em As mãos o narrador escreve numa espécie de clausura em sua própria casa após o abandono do amor, assombrado pelo testemunho das paredes e assistindo, pela janela, lá fora, a “guerra” (as engrenagens do mundo propriamente dito); Jogo de varetas reúne histórias de personagens inclassificáveis, dos mais diferentes formatos narrativos, sobre temas muitas vezes obscuros ao leitor numa primeira ou segunda leituras, mas sempre numa condição humana irresoluta.


De fato, há uma complexa generosidade nestes textos, que não concedem, não negociam, muito menos estendem a mão ao leitor. Ao menos que ele domine uma série de referências abandonadas, cifradas, é capaz de restar depois de As mãos e, em maior parte, Jogo de varetas a sensação de uma leitura fugidia, que escapa.


“A discussão hoje está muita rasa e em torno da circunstância de uma participação comercial da literatura. Não há uma sofisticação crítica da leitura. Nós perdemos essa dimensão e meus livros tentam recuperar isso, uma dimensão do homem do Renascimento, um homem mais próximo do conhecimento e que o conhecimento seja sempre uma fagulha de descoberta”, afirma Manoel.


Nada é exatamente o que parece ser na literatura de Manoel Ricardo de Lima, a ambivalência é uma virtude trágica de suas palavras, que ele arquiteta como uma ponte entre a margem do rio e o rio – a possibilidade de encontrar o outro no fundo.


“A gente nunca diz as coisas completamente. Mesmo que a gente diga, as coisas não chegam ao outro completamente. Quero que esses trabalhos sejam a dimensão da possibilidade de tocar o outro, que esses textos digam de alguém tentando tocar o outro, ser tocado. Isso me interessa muito”.


SERVIÇO


As mãos

7 letras, 94 páginas, R$ 34

 

Jogo de varetas

7 Letras, 90 páginas, R$ 34

 

Trecho


“O lugar tem cheiro bom. O que me faz...

voltar sempre, nem tanto para ler, é uma mulher bem velha, acho que é cega. Ela aparece e senta o mais perto possível de mim e da limpeza desse lugar. Ela me incomoda e tem cheiro bom como esse lugar. Muitas vezes penso em dizer alguma coisa, pedir para se afastar, por exemplo, sentar do outro lado ou talvez perguntar o seu nome. Muitas outras vezes penso em matá-la, ou tirá-la daqui à força e arrastar o seu corpo rugoso e elegante pela rua, esgotar todo o meu cansaço na sua existência. Esmigalhar a velha. Vez ou outra acho que penso em dar-lhe um abraço, mas já em seguida penso outra vez em empurrá-la sobre as estantes só pra espiar as feridas que uma queda poderia lhe causar.

[“Amém!”, de Jogo das varetas]

 

Quadrinhos


Livro de Shaun Tan sai no Brasil


Shaun Tan não queria escrever uma grande história. Pelo menos não era o que tinha em mente quando começou a rabiscar, na mesa da cozinha, um homem e um caranguejo enorme na praia. O australiano tinha acabado de ver a foto de um caranguejo azul em uma revista e pôs o homem ali apenas para dar uma noção de escala.


Não havia enredo nem ideia genial por trás. Mas eles pareciam conversar. E daqueles esboços surgiu A Coisa Perdida que, publicada em 2000, conquistou menção honrosa na Feira Internacional do Livro de Bolonha, virou peça de teatro e ganhou Oscar de melhor curta de animação de 2011. Agora, a coisa acaba de achar o caminho do Brasil, trazida pelas Edições SM.


No livro, uma estranha criatura que se alimenta de enfeites natalinos é encontrada na praia por um garoto. Meio máquina, meio polvo e caranguejo, ela não tem definição ou origem conhecida. Está perdida e triste. Mas é amigável. Tanto que o rapaz decide ajudá-la a encontrar seu lugar.


Não há respostas claras. O próprio Shaun, ganhador do Astrid Lindgren Memorial Award 2011 vive encontrando novos significados: crítica ao racionalismo econômico, à burocracia e à alienação, transição da infância para a idade adulta. Num livro em que ideias e sentimentos são evocados, não explicados, uma frase do narrador prevalece: “Essa é a história. E, por favor, não me pergunte qual é a moral”.

 

SERVIÇO

 

A Coisa Perdida

Autor: Shaun Tan

Editora: Edições SM

32 págs.

Preço: R$ 37


ESTANTE

 

O designer de Bea Feitler, org. Bruno Feitler

Cosac Naify, 216 p., R$ 119

Livro sobre o trabalho e a trajetória de uma das maiores designers brasileiras. A obra é organizada pelo filho da designer.


O diabo na água benta, de Robert Darnton

Companhia das Letras, 632

páginas, R$ 474,50

O renomado historiador escreve nesta obra sobre a literatura feita especialmente para caluniar e difamar reis e poderosos na França do século XVIII.

 

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