Letra & Música 18/08/2012

Um gênero literário orquestral

O Melhor de Senhor reproduz páginas e textos primorosos da revista que estabeleceu novo padrão de qualidade no mercado editorial do País
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As vendas de revistas nos Estados Unidos estão em declínio acentuado, ao menos as feitas em bancas. A queda chega aos dois dígitos, como divulgou semana passada o Audit Bureau of Circulations – o Instituto Verificador de Circulação deles. O repórter David Carr, que assinou no último domingo matéria sobre o assunto no The New York Times, utilizou, para resumir a situação, uma imagem que passa a ser cada vez mais comum por aqui também: a sala de espera do consultório médico lotada, a mesinha de centro ornada com um leque de revistas de vários matizes, enquanto os pacientes folheiam com um delicado toque do indicador seus celulares.


Sabe-se lá se isso denota um processo de transferência da audiência avulsa das bancas para as edições digitais ou uma verdadeira diminuição da relevância das magazines – segundo os números, as vendas digitais não compensam a queda até agora. De uma forma ou de outra, assim como a proibição de se fumar nas redações décadas atrás, a tendência contemporânea desencoraja certa mística jornalística, uma em especial, o ideal de se conceber uma revista impressa, uma obra de arte gráfica, uma espécie de gênero literário coletivo, orquestral!


Que o diga Nahum Sirotsky, o homem que concebeu a revista Senhor no final da década de 1950 e chorou lágrimas de alegria e decepção ao ter em seus braços a primeira edição impressa da revista. Não saiu como queria exatamente, mas saiu, e saiu com a belíssima edição gráfica do artista plástico Carlos Scliar, cartuns do jovem Jaguar e textos do calibre de Clarice Lispector, Ernest Hemingway e Otto Maria Carpeaux.


Senhor foi um acontecimento editorial, a começar pela própria palavra edição, que – se acreditarmos no testemunho de Paulo Francis, convidado por Nahum para ser o editor-assistente da publicação – foi popularizada pela revista. Inspirada em magazines norte-americanas, a revista foi concebida para aliar o altíssimo tratamento gráfico à qualidade textual, um produto de luxo para o jovem senhor moderno daqueles tempos.


Ao contrário de um de seus modelos, a revista New Yorker, que chegou até nossos dias e já inspirou outros rebentos por estas bandas, como a piauí, Senhor durou apenas cinco anos, de março de 1959 a janeiro de 1964 (ao todo 59 edições). Mas, diferentemente da efemeridade da maioria destas produções, permaneceu com um espaço reservado na história editorial brasileira, marco em áreas como o design gráfico, o jornalismo e a literatura.


Sr.

A publicação de O melhor da Senhor pela Imprensa Oficial de São Paulo permite agora que essa importância seja constatada por aqueles que não acompanharam a revista, nem gastaram horas em sebos atrás de seus exemplares. Ou melhor, antes de tudo, permite que leiamos mais de 50 anos depois textos como “Meus encontros com Kafka”, de Otto Maria Carpeaux, no qual o crítico literário conta como conheceu o dito cujo num encontro de artistas em 1921, em Berlim.

 

“Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. - que tinha fama de Messalina -, retirei-me para um canto, já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia imaginar que a tuberculose da laringe, que o mataria dois anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. Apresentou-se. E então se desenrolou aquele diálogo:


‘Kauka’.


‘Como é o nome?’


‘KAUKA!’


‘Muito prazer’”


A literatura, que era editada por Paulo Franci, é um dos pontos altos do volume, com textos de Clarice Lispector - que eram publicados a cada edição -, de Campos de Carvalho, Rubem Braga, Graciliano Ramos, Antonio Callado, entre outros. A novela de Jorge Amado A morte e a morte de Quincas Berro D’água está na íntegra, exatamente na forma de encarte como foi publicada originalmente na revista.


As mais de 400 páginas da edição garantem leitura por um bom tempo, que pode pular dum texto de Armando Nogueira sobre Didi para um ensaio de José Ramos Tinhorão sobre o carnaval. Música, artes plásticas, moda, etiqueta, comportamento são alguns dos variados temas que desfilaram por suas páginas. Publicidades também são reproduzidas, assim como os vários cartuns de Jaguar e as capas da maioria das edições. A diagramação segue o projeto gráfico original da revista.


Em par com o volume principal, um outro livro traz textos sobre a história de Senhor, assinados por quem participou dela, como Nahum Sirotsky, Paulo Francis e Ivan Lessa. Maria Amélia Mello, que concebeu e coordenou o projeto, e Ruy Castro, o organizador, também escrevem sobre Senhor, com destaque para o texto deste último, que traça sem idealismo a história da publicação, desde o surgimento da ideia, até sua decadência financeira, quando enormes matérias pagas eram publicadas sem o menor constrangimento. Ruy faz lembrar que mesmo nos tempos heróicos o jornalismo de revista esteve sujeito aos solavancos do mercado leitor e da publicidade.


Revistas antológicas como New Yorker (que registrou queda de 17,4 %) ou novos empreendimentos no setor deverão continuar rebolando para atrair os olhares de seu leitor. Enquanto isso, custa o preço de um bom e robusto livro relembrar os feitos de publicações como Realidade, Pif Paf, O Pasquim e Senhor, todas já com seleções ou edições fac-similares editadas no País.

 

SERVIÇO

 

O Melhor de Senhor

Imprensa Oficial de São Paulo, 520 páginas (2 livros), R$ 120.

 

LANÇAMENTOS

 

Contos Inefáveis

De Carlos Nejar

Nova Alexandria, 120 p.,
R$ 28


O escritor gaúcho Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, mais conhecido por sua obra poética, lança seu primeiro livro de contos. Pequenos textos, fragmentos do cotidiano a partir dos quais o poeta sonda os mistérios do ser humano.

 

O Diabo na Água Benta

De Robert Darnton

Companhia das Letras,
632 p., R$ 74,50


Neste livro, que traz como subtítulo “ou a arte da calúnia e da difamação de Luís XIV a Napoleão”, o historiador Robert Darnton escreve sobre um submundo literário que rescredenciava o despotismo francês do século XVIII atráves da calúnia, da difamação e da maledicência.


As melhores entrevistas do Rascunho (vol.2)

Arquipélago Editorial,

288 p., R$ 39


Segundo volume da seleção das melhores entrevistas feitas pelo jornal literário Rascunho. Esta edição traz escritores como Ariano Suassuna, Raimundo Carrero, Ruy Castro, Marçal Aquino e Joca Reiners Terron.


Suplemento Literário Minas Gerais - Edição Especial Jornalismo Cultura

Em um dos suplementos literários mais tradicionais do País, esta edição traz um especial sobre a produção do jornalismo cultural nos dias de hoje. Disponível em http://migre.me/akdDF.

 

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