Airton Monte 08/08/2012

Domésticos percalços

A casa é um simulacro do mundo lá fora, onde não é raro que as coisas de uso habitual entrem em pane
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Tudo vai bem, tudo legal neste domingo providencial do comecinho de agosto. Pelo menos até as duas horas da tarde. De um dia que parece transcorrer pacificamente, apesar de uma ou outra surpresa um tanto quanto desagradável, porque seria até demais querer uma total tranquilidade o tempo todo. Isso só acontece em obras de pura ficção escritas por um autor entediado demais para criar um enredo com conflitos. Parto do princípio de que uma casa é verdadeiramente um simulacro do mundo lá fora, onde não é raro que as coisas de uso habitual de vez em quando entrem em pane, se quebrem ou os caseiros objetos findem lá por entrar em greve, gerando aporrinhações de duração longa ou passageira. É a descarga do banheiro que se recusa a trabalhar. É o ferrolho do portão da rua que se solta inesperadamente dos parafusos que o prendem. É uma lâmpada que se queima inesperadamente quando mais se precisa dela. É o botijão de gás que se esvazia sem dar aviso prévio, a borracha da máquina de lavar que amanhece furada, partida em dois pedaços feito uma cobra dividida ao meio por um facão afiado. As coisas quebram, terminam seu ciclo de vida igualzinho a todos nós e precisam ser substituídas, algumas com certa urgência, outras nem tanto.


Nessas horas em que campeiam essas domésticas preocupações, mais difícil do que manter-se calmo é encontrar um profissional em pleno domingo para salvar a nossa pátria, resolver a aflitiva situação. Bombeiros, eletricistas, encanadores, pedreiros, todos os quebradores de galhos sumiram de vista como por um passe de mágica, desapareceram na buraqueira como sombras fugidias e sem deixar vestígio. Por mais que se procure os já conhecidos por outras intervenções, todo esforço é vão, pois não estão em lugar nenhum e desligaram os telefones qual estivessem combinados numa geral insurreição. Não há como encontrá-los, nem por força e obra de um milagre. E assim, a sujeitos imprestáveis como eu, totalmente desprovidos de qualquer habilidade numa dessas mecânicas atividades, incapaz até de pendurar um quadro na parede sem derrubar a própria utilizando martelo e pregos, só resta esperar que o outro dia chegue para mandar providenciar os devidos e necessários reparos e consertos. Afora esses pequenos distúrbios, nada mais surge no céu do que os aviões de carreira, além das brancas nuvens polvilhando o azul solar da tarde acima de minha cabeça atarantada.


Sem nada o que fazer pra resolver tantas aporrinhações, tantos percalços domésticos, ligo a televisão e começo a me distrair vendo um documentário, longo demasiado para o meu gosto, sobre o tão falado e assaz comentado Caminho de São Thiago, pelo qual transitam em êxtase e em transe os verdadeiros e falsos peregrinos vindos de todas as partes do mundo, caminhando centenas de quilômetros à procura de um suposto e peripatético nirvana, em busca de supostos conhecimentos esotéricos, místicos e revelações espirituais de grande monta e significado ímpar. Enquanto marcham, incansáveis, rumo ao seu anímico destino, apoiados em rústicos cajados ou em sofisticadas bengalas, todos trazem estampada nos rostos uma expressão indefinível de quem procura o pote de ouro no fim do arco-íris. Têm no coração a esperançosa certeza de que o simples ato de fazer esta caminhada os purgará de todos os pecados passados, presentes, futuros. Como se o Caminho de São Thiago fosse assim uma espécie de lavanderia da alma, uma cornucópia de milagres infindos. Desse ponto de vista, o Caminho de São Thiago tem a mesma serventia mística das romarias brasileiras.


A meu ver, a única diferença é que por lá romeiro atende pelo aristocrático epíteto de peregrino. Cá por mim, não acredito no pensamento mágico de que andar até Juazeiro, Canindé ou qualquer outro santuário daqui e d’alhures consiga mudar magicamente a existência de um indivíduo que nem eu e vocês. Eu também não creio que mortificar o corpo com qualquer tipo de sacrifício físico venha nos causar uma mais que milagrosa evolução espiritual, nos transformando de demônios em anjos da noite para o dia. Ora pílulas, caminhar nada mais é do que uma condição natural dos bípedes, pensantes ou não. Jamais um passaporte infalível e com firma reconhecida nos cartórios sagrados para alcançar a paz e a felicidade espirituais. Se o fosse, o homem feliz não seria o homem sem camisa. Seria o carteiro. E o esmoler pediria esmola dando gargalhadas de porta em porta sob o sol quente. Entanto, o Caminho de São Thiago virou moda, point místico, uma estrada mágica, cujo garoto-propaganda mais conhecido chama-se Paulo Coelho, que descobriu o que para ele foi o verdadeiro e legítimo caminho das pedras.

 

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José Marques 24/01/2013 12:09
Eu também era um leitor assíduo da coluna do Dr.Airton Monte. Senti muito sua morte; com certeza ele está agora junto ao seu pai e sua mãe, e vendo, maravilhado, a face de Deus!
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Marcos Lima 26/12/2012 13:50
Saudades verdadeiras desta coluna e do autor. O natal foi menos alegre este ano e não sabia o motivo. Agora sei. Sinto sua falta amigo. Agora sei que vc acredita em Deus. Bjs para meu "confrade" Airton Monte.
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