Fevereiro de 1985 05/10/2012 - 08h00

Jáder de Carvalho

Jáder de Carvalho era daqueles cearenses conhecidos por ação em diversas áreas. Cearense de Quixadá, era chamado de jornalista poeta, romancista, ensaísta, professor e advogado.
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Detalhe da página do Jornal O POVO, publicada em 25/04/2000
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Jornal O POVO, 25/04/2000

 

Autor: Fenelon de Almeida

 

Jáder de Carvalho era daqueles cearenses conhecidos por ação em diversas áreas. Cearense de Quixadá, era chamado de jornalista poeta, romancista, ensaísta, professor e advogado. Marxista, voltou-se para o trabalho preocupado com as condições sociais de seu povo - o brasileiro e, em particular, o nordestino. Foi assim sobretudo na literatura e no jornalismo. Na literatura, com uma poesia social e uma ficção de denúncia. Na imprensa, através de um jornalismo marcado notadamente pelo confronto com os políticos. Fundador do Diário do Povo, que existiu entre 1947 e 1961, Jáder tinha em mente a necessidade de produzir um jornal plural e democrático. Ele costumava dizer que no seu jornal havia um redator que era comunista, outro que era integralista, outro que era apolítico. Continuou pensando assim até sua morte, em 7 agosto de 1985, aos 83 anos de idade - seis meses após esta entrevista que O POVO reedita hoje. Feita pelo jornalista Fenelon de Almeida e publicada no suplemento O Povo Cultura, a entrevista é uma homenagem a Jáder de Carvalho. Nela, o poeta e jornalista relata parte de sua vida e de suas idéias sobre o Nordeste, a literatura, os políticos e os brasileiros.

Povo foi comemorar a queda aparente da ditadura"
Entrevista a Fenelon de Almeida

Quando sentimos escassear, no Ceará, os verdadeiros jornalistas, aqueles que exercem com decoro e independência a sua profissão, desincumbindo-se da missão de, informando, formar ou transformar a opinião pública, aqui estamos para falar de Jáder de Carvalho, o maior jornalista cearense em nosso tempo. Dia 29 último, ele viu transcorrer o seu 83º aniversário natalício. E continua a mesma fortaleza inexpugnável de lucidez e destemor.

Falar de Jáder jornalista é também falar do poeta e do romancista e do professor. Nele estão intimamente associadas essas quatro facetas de sua atividade intelectual, integradas num só biotipo. O poeta, o professor e o jornalista estão xifopagamente interligados, e são indissociáveis. Tem sido assim, através dos anos. O pensamento diretor da obra de Jáder de Carvalho é sempre o mesmo, desde quando ele faz versos, dá aulas de História e emprega a sua pena de grande jornalista. Em qualquer um desses momentos, disponta o sociólogo. E um só pensamento avulta em sua mente: a libertação social, econômica e cultural do povo nordestino. Povo é o universo em que se situa tudo quanto ele há feito ou deixou de fazer.

Falar desse mundo é o que aqui se propõe. Entretanto, não nos atrevemos a abordá-lo diretamente, com palavras nossas. Só serviriam para desfigurar-lhe a imagem de grande mestre das letras cearenses. Vamos tentar delinear os traços de sua individualidade, valendo-nos de suas próprias palavras. Queremos deixar a ele mesmo a tarefa de revelar-se aos das novas gerações. A nossa participação vai restringir-se à escolha dos enfoques. A revelação será sua. Ninguém melhor do que Jáder de Carvalho para falar de Jáder de Carvalho.

Poeta, professor, jornalista... Qual dos três nasceu primeiro?

O indivíduo Jáder de Carvalho nasceu na Serra do Estêvão (Quixadá), a 29 de dezembro de 1901. O jornalista em 1917, na cidade de Iguatu. Deste modo: meu pai, Francisco Adolfo Carvalho, arrendou uma tipografia ociosa, de propriedade do farmacêutico Arnaud. Nela, compus e imprimi um pequeno semanário de letras, todo escrito por mim, exceto os infalíveis sonetos de Bilac. Meu genitor mantinha um bem freqüentado Externato. No mesmo ano de 17, comecei a ensinar. Por sinal, Português. O livro adotado para análise gramatical e lógica era o "Iracema", de Alencar, ou seja, o maior poema do Brasil, em todos os tempos. O poeta veio ao mundo em 1919, dois anos depois. Eu estudava no Liceu do Ceará. Como aprendi a arte gráfica, para compor e imprimir meu semanário, acima citado? Assim: meu pai, em 1911, era sócio da "American Typography", localizada na Praça do Ferreira, lado do sol. Meu professor foi o então tipógrafo Gastão Justa, que morreu acadêmico de letras. Fui, com muita saudade, o orador da Academia Cearense no seu enterro, no São João Batista. Pouca gente. Muitas lágrimas da família. Poeta, jornalista e professor... Todos vivos, em companhia do sociólogo. O advogado, esse, para alegria minha, está bem morto. Enterrou-se numa aposentadoria.

Você escreveu um romance intitulado "A Criança Vive", no qual consegue provar que o espírito de criança não morre nunca no ser humano, perdurando no homem adulto. Pode falar de sua infância?

Quase não tive infância. Amadureci muito cedo. Minha mãe (Coitadinha! Morreu tão moça!) foi quem me viu sempre menino.

Qual foi a maior alegria da sua vida?

Ficou de vir. Mas ainda não chegou.

E o que mais o entristeceu?

Não posso, não devo falar. Dói. Nunca deixará de doer.

Fez alguma coisa da qual se tenha arrependido?

Fiz. Obedeci à Margarida (sua mulher), formando-me em Direito. Meu lugar era na Psicanálise. Fui, no Ceará, o primeiro a ler Freud. Todos os anos, atualizo-me na Psicologia Profunda. No Brasil, dentro dela, tive um amigo e mestre: Gastão Pereira da Silva. Mais velho do que eu, acaba de publicar, em seis volumes, uma obra que não pode deixar de ser lida: "Psicologia da Vida Moderna". Nessa obra, vem o retrato de Freud em corpo inteiro.

Gostaria de pedir desculpa ou perdão a alguém?

Homem-homem não pede perdão a ninguém. Desculpa? Deve pedir. Depois de fechar o "Diário do Povo", procurei, com humildade, todos aqueles a quem ofendi com muita coragem, mas injustamente. E fui desculpado, com muita alegria por todas as vítimas, da minha cabeça quente. Cabeça pegando fogo, sem condições de julgar sem pecado. Cabeça, enfim, de quem nasce com destino de fazer oposição a todos e a tudo.

Pode falar também da Imprensa cearense, como um todo, nos dias atuais? Os jornais de hoje são melhores ou piores do que os de antigamente?

De Getúlio até hoje - senão com muito perigo - não pôde existir uma imprensa de verdade, quanto ao posicionamento político ou ideológico dos jornais. Num regime de brutalidade e corrupções, somente pequenos jornais, quase sem leitores, circulam às escondidas e sempre com perigo de apreensão. Em Fortaleza, não se deve negar o progresso material da Imprensa de informação e crítica social e política. Jornais do Ceará já podem ser lidos nas metrópoles do Brasil. Por falar em imprensa: não quero esconder o que os cearenses de hoje ignoram. O jornal mais bem escrito e de feição mais artística foi o "Jornal do Comércio", fundado nesta Capital em 1924. Diretor: Raimundo do Monte Arrais, renomado constitucionalista. Redator-chefe: Elcias Lopes, uma das grandes figuras da imprensa do Ceará, hoje totalmente esquecido. Redatores principais: Clóvis Monteiro, filólogo, anos depois nome nacional, e Manuel Monteiro, excelente cronista barroco. Redatores auxiliares: eu e o futuro cunhado Francisco Sabóia, grande estudioso da língua portuguesa, elogiado, sem favor, por Mário Barreto.

LIMITAÇÕES E IMPOSIÇÕES
O Nordeste, como Polígono das Secas, ainda o preocupa?

Nordeste e Polígono não se confundem. As secas ultrapassaram, primeiro, as fronteiras nordestinas e, logo depois, as do Polígono. Hoje, para mim, existe o Brasil semi-árido, reino macabro dos grandes verões periódicos, que vai do Leste maranhense ao Norte de Minas, abrangendo, total ou parcialmente, cerca de 10 Estados. Assim, as secas já não caracterizam apenas o Nordeste e o Polígono, mas o Brasil semi-árido, de vasta extensão territorial.

A seu ver, há uma saída para este subdesenvolvimento crônico? Qual?

Com a presença do FMI dentro do Governo da República - presença marcada por limitações e imposições que ferem frontalmente o poder e a soberania nacional - não vejo saída alguma. Falta-nos a bravura de Cuba e da Nicarágua para enfrentar (ou vencer) o imperialismo norte-americano. Tremo pelo destino deste País, que as multinacionais não pagam imposto, em detrimento das empresas brasileiras, e tecnocratas indesejáveis, sob o comando de militares reformados, enriquecem, assombrosamente, da noite para o dia, sob os olhos conformados do povo. Acredito que o Brasil alcançará, em período não muito longo (se não for logicamente desmembrado), um lugar que o espera entre as potências mundiais. Sem escravidão de qualquer tipo, poderíamos planejar e construir.

Por que, até hoje, não se encorajou essa mensagem?

Fácil de responder, embora o vento leve minhas palavras, enquanto passa ao longo as mentiras pagas e desonestas de Delfim Neto. Apesar de tudo, em relação à parte deste País, esquematizei o livro "Brasil semi-árido". Sugestão para a solução dos problemas: antigos e novos. Nesse modesto ensaio, passo longe do resto do Brasil. E passo por isto: num regime militar, reforçado por sua incompetência e inegável conspiração, livros, opiniões, conselhos de paisanos jamais seriam aceitos. Nada espero de Tancredo Neves. O País, às mãos de militares inativos e economistas monetaristas, já não passa de doente grave, anestesiado, na mesa de operações, à espera de cirurgia. O pior é isto: não existem cirurgiões de extirpação do câncer, principalmente quando tomou conta da carne, do sangue e - quem sabe? - da alma.

A Sudene esvaziou-se, morreu mesmo, ainda será a solução para o Nordeste?

Como viu, já não aceito a discriminação pensada e humilhante: Nordeste das secas. Existe sim, as secas do Brasil semi-árido. Para que valeria uma Sudene destinada aos problemas climáticos e econômicos de uma área imensa, constituída de uma dezena de Estados?

Que nos diz da bandeira empunhada pelo jornalista e professor Paulo Bonavides?

A América Espanhola continuou esposada depois de dividida em países. O Brasil, unido pela língua portuguesa e religião católica é, contudo, um país repartido em numerosas regiões naturais, com a suas características absolutamente indestrutíveis. Nada mais lógico do que imitar-se o exemplo da América hispânica, para acabar com esse patriotismo idiota de um Povo Uno porque nele se fala e se reza do mesmo modo. Eu - não tremo, ao dizê-lo - seria hoje feliz se pudesse dizer ou escrever: Jáder de Carvalho, cidadão da Confederação do Equador.

Bonavides sustenta que a autonomia das grandes regiões naturais do Brasil é "um dos remédios destinados a cicatrizar a ferida centralizadora e estatizante no organismo da Nação", concorda?

De modo absoluto. Um mesmo pensamento nasceu em cérebros diferentes, sem haver conversa entre duas cabeças. Não é de espantar que sempre existiu muita finidade entre o meu pensamento e o de Paulo Bonavides. Razão: nós estudamos muito e, no caso do problema brasileiro de que se trata desta entrevista, temos a coragem de pensar com independência, à luz da Geografia Humana e de outras ciências, dessa convocação a gente não pode prescindir.

O NORDESTE NA LITERATURA
Fazendo literatura, você chegou a filiar-se a algum movimento de renovação literária?

Filiei-me ao Modernismo de 22. Fiz uma poesia equilibrada, como a que se encontra ao longo da minha vida poética. Antecipei-me ao Modernismo de 45. Aliás, devo esclarecer que não estou ferindo as melindres de certa gente, dizendo-me modernista. Tenho provas.

Em que consistiu sua participação?

Publiquei "Canto Novo da Raça", em parceria com Sidney Neto, Franklin Nascimento e Mozart Firmeza (1927). Em 1930 estava nas livrarias meu "Terra de Ninguém". Antônio Girão Barroso, com muita honra para mim, coloca esse livro entre os dez maiores saídos do Movimento Modernista no Brasil.

Como você se sente mais atual e atuante: como romancista ou como poeta? Por quê?

Sinto-me igualmente atuante e atual no romance e na poesia. No romance, contra a vontade dos que se dizem mestres. Na poesia, cabem os meus problemas de sempre: a dor dos oprimidos, honras aos povos e raças.

NATURALISMO SOCIAL
Você sempre disse ser um homem telúrico. Como se sente na vida urbana?

Renovo o meu telurismo com o livro "Terra Bárbara" em véspera de segunda edição acrescida dos sonetos nordestinos, espalhados em minha obra poética. Na cidade, sou um sozinho no meio da multidão. Ah, como me dói a ausência da fazendola "Lisboa", onde tanto conversava com as ovelhas!

Que fazer, para conter-se a poluição e tratar-se o meio ambiente? Solução técnica ou política?

Expulsar do Poder os dirigentes analfabetos. A Ecologia, no Ceará - já o disse alhures - é a mais recente descoberta da UFC. Desgraçadamente, ainda não funcionou, mesmo em Fortaleza, às barbas da sapiência oficializada. A Técnica e a Política não podem deixar de conviver, na preservação do meio ambiente. Por infelicidade, no Brasil, principalmente nos centros industriais, já existe a urgente necessidade de recriar-se o meio ambiente. O primitivo, esse o homem destruiu, aliás esquecido de si mesmo.

Por que não regressou ao sertão, depois da aposentadoria?

Porque me faltou dinheiro para comprar outra fazenda, outras vacas, outras cabras, outras ovelhas. A "Lisboa", eu a vendi, forçado pelo Banco do Nordeste, que somente agora descobriu o seu papel na economia do Semi-Árido, ou seja, a quase imensa região brasileira castigada pelas chamadas secas periódicas. Entre parêntese: nessa região, principalmente no Nordeste, as piores secas têm sido os governos - tanto o federal como os estaduais.

Qual, hoje, é o seu principal entretenimento? Gosta de ver televisão?

A televisão, no Brasil, perdeu o sentido cultural que deveria ter. Nela, a Roberta Close aparece com muito mais prestígio do que os grandes intelectuais, os grandes cientistas. Não falo em grandes políticos, por esta razão: no Brasil não existem políticos, no sentido científico da palavra, mas simples compradores de votos, apesar da imensa austeridade do Superior Tribunal Eleitoral, cujos juízes sempre leram a Constituição de cima para baixo ou de trás para diante. Para completar a resposta: esqueço-me, às vezes, no meu quarto de dormir, que é também escritório, gabinete de leitura e domicílio da máquina de escrever - esqueço-me da presença do televisor. Porque sempre gostei do sexo oposto, quando me sinto sem o calor feminino, compareço, pela televisão, ao programa "Essas Mulheres Maravilhosas", de J. Silvestre.

Como outros sociólogos brasileiros, você também acha que a televisão, com essa mania de enlatados estrangeiros e de transmissões em cadeias nacionais, se vai transformando em verdadeiro agente de "colonialismo cultural"? Estará contribuindo realmente para apagar da memória coletiva das populações regionais brasileiras os traços culturais genuinamente autóctones?

A cultura brasileira, em que Portugal, França, negros, índios e mestiços misturavam suas tradições, essa já foi expulsa do Brasil. Culpados principais, pelo poder do dinheiro: a "Rede Globo" e outras redes estrangeiras de menor relevo e, por isso mesmo, de menor perigo de poluição para a cultura brasileira - menina que não pôde crescer. Finalmente: o regional, no Brasil, afoga-se no "colonialismo estrangeiro". Assim, não teve tempo, ao menos, de tornar-se nacional.

Que deveríamos fazer para salvaguardar a nossa cultura regional dessa derrocada, livrando-a, em tempo, desses transplantes indesejáveis?

No Brasil, fôra mais fácil levantar pirâmides e esfinges do que levar a cultura brasileira ao seu verdadeiro destino. Afinal, para salvaguardar essa cultura, só vejo e encontro este caminho: substituir no Governo da República, no Governo dos Estados, no Congresso Nacional e nas Assembléias Legislativas, muitos dos seus atuais ocupantes. Os nossos dirigentes - falo com o devido respeito - até lembram, sob alguns aspectos, norte-americanos naturalizados brasileiros. Substituí-los por brasileiros natos, isto é, autênticos, sem o vício ou pecado de, espontaneamente, se deixarem levar por interesses pessoais e assumirem a condição de súditos de Reagan (Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos) e seus antecessores, até à morte da influência inglesa no Brasil - eis o caminho certo.

PSICOLOGIA E ESPIRITISMO
Sabemos que, ao lado da Literatura e da Sociologia, a Psicologia também o seduziu. Como tem passado até hoje o psiquiatra e psicanalista que você não chegou a ser?

Sem frustração. Faltou-me tempo para desesperar. O ano passado, matei saudades do que não fui, lendo "Psiquiatria Básica", grande livro de Gerardo da Frota Pinto. Leiam, os idosos (palavra para não ofender de sexagenários para cima), o capítulo 12 ("Velhice e Senectude"). Já é um consolo a gente se conhecer nas fronteiras do fim da vida.

Falemos agora do advogado. Vale a pena?

Para os que não escrevem contos, poemas, sociologia, artigos de jornal, vale.

Qual foi a injustiça que mais o magoou?

O meu afastamento do magistério por dez anos. Autor do crime: o governador Menezes Pimentel. Ingrato! Sempre fui desassombrado defensor dos negros, quer os do Brasil, quer os de países racistas, como os Estados Unidos e a África do Sul.

Na sua opinião, a vida tem uma finalidade?

Tinha: a de procriar, para a sobrevivência do homem. Hoje, não vale a pena fecundar ventres. O Apocalipse nuclear é o presente dos imperialismos para os nossos filhos. Amar, para ter filhos, é cavar sepulturas antecipadas.

Que espécie de vida espera encontrar após a morte física?

Como alma, ser dotado da quarta dimensão e, graças a ela, entrar numa casa fechada, sem necessidade de bater palmas ou pedir que abram a porta. Outra vantagem, segundo o Espiritismo: viajar com a rapidez do pensamento, sem utilizar qualquer meio de transporte e - o que seduz - não ter de pagar passagem. Falo assim por brincadeira. Espírito, eu continuaria na minha casa, entre livros com a marca das minhas mãos e dos meus olhos. Continuaria inimigo da rua, principalmente da rua de metrópole - sem silêncio, sem tréguas para uma conversa sobre Arte, Ciência e Literatura. Por isso, meus queridos adversários, não me temam depois de morto. Asseguro: não lhes aparecerei, nem de noite, nem de dia, como falam os homens gramaticalmente despreocupados.

Miguel Gurgel do Amaral, católico praticante e homem de bem, nutria por você uma grande amizade. Dizia ter esperança de ainda vê-lo na Igreja. Presenciei, certa feita, quando ele, com um olhar cheio de respeito e esperança, lhe disse estar confiante de que, um dia, haveria de vê-lo ajoelhado. Não se falando sério ou por simples gracejo, você lhe respondeu: "Só se for para dar um tiro, Miguel!". Pensa atualmente assim?

Sempre fui um homem que não muda facilmente de idéias. Ajoelhar não significa, absolutamente, não ser materialista. Por educação, não vou deixar de ajoelhar-me ou beijar anel de bispo. Honesto comigo mesmo, jamais quis aprender a rezar. Menino, meus pais - grandes católicos - tudo fizeram para que eu aprendesse o Padre-Nosso e a Ave-Maria. Também foram em vão os bolos de palmatória, para que eu dormisse de camisola. Em resposta à imposição, passei a vestir a roupa e os sapatos de domingo, para depois cair na rede. Até hoje, pela força, ninguém nada conseguiu de mim. E isso me dá prazer.

DESABAFO NACIONAL
Como vê a Política e os políticos brasileiros de hoje?

Sem Política Científica jamais poderá haver políticos autênticos. Acha que Tancredo, Maluf, Geisel, Figueiredo, Ulysses e Montoro podem ser chamados de políticos? Ocorre no Brasil porque, neste País, os mentirosos sempre ficaram fora da cadeia.

Social e politicamente, qual é o regime com que você sempre sonhou?

Antes de tudo, troquemos o "qual é" pelo "qual foi". Os que têm acompanhado a minha modesta, porém inquieta e autêntica vida política, sabem que eu nasci para o marxismo em 1928. Mas a ortodoxia soviética me espantou. Aliás, não existe razão para essa ortodoxia, já que na Rússia jamais se implantou o socialismo, caminho certo e reto para o comunismo. Na Rússia, o que se implantou, com em todos os seus satélites, foi o mais puro capitalismo de Estado, que eu denunciei, corajosamente, há 30 anos atrás. Você foi tocar no assunto, com ótima intenção. Agora, o jeito é agüentar. Não existem povos e países semelhantes entre si. Logo, não se pode implantar um mesmo regime político nesses países e para esses povos, sem antes descer-se ao estudo de geografia, história, costumes, religião, organização social no passado e no presente. Ora, os soviéticos ignoraram tudo isso na inauguração do socialismo, com rota para o comunismo. Daí a pluralidade desse comunismo: russo, chinês, cubano, albanês etc. Dito isso, vale a pena lembrar: sem a esperada e devida ressonância, quase ninguém soube, no Brasil, que a China trocou, há poucos dias, o marxismo pelo capitalismo de estado, pendendo para aceitar a empresa privada, apenas com esta diferença em relação aos países capitalistas: entendimento constante entre empregadores e empregados. Um dos dirigentes chineses chegou mesmo a proclamar, mais ou menos com estas palavras: "Se Marx e Lenine voltassem, hoje, ao mundo, não teriam as mesmas idéias". Quanto ao socialismo de Tito, diferente dos demais, trata-se apenas de um caso, sob certo aspecto, antropogeográfico. Falta-me espaço para explicá-lo.

Hoje, com essa vivência de mais de 80 anos, em que você mais acredita: na Revolução ou na Evolução?

Sou pela Revolução, isto é, pelo salto, mas sem derramamento de sangue. Bastaria um estudo do país e do povo a que e a quem se destinasse a Revolução. Uma catequese inteligente, sem opressão e sem ódio - embora em mais longo prazo - alcançaria o êxito desejado.

Como viu o delírio popular pela vitória do candidato da Aliança Democrática?

O povo - que durante quase 21 anos não se insurgiu contra a ditadura militar - o povo, contudo, soube ir à praça pública, às ruas, para comemorar a queda aparente dessa ditadura. Mais: para o Exterior, e também para muitos brasileiros, a imensa festa popular valeu, naturalmente, como eleição direta de Tancredo, agora Tancredo de Almeida Neves, depois de eleito. A primeira mudança? Essa festa brasileira, sinceramente, pareceu-me, mais do que tudo, uma fuga de menos de 24 horas às aflições, já bem antigas, geradas pelo crescente e asfixiante custo de vida. Foi, sem dúvida alguma, o desabafo da falta de dinheiro. Desabafo nacional.

Leia a íntegra desta entrevista no site do O POVO (www.opovo.com.br). Também no site reproduzimos uma outra entrevista com Jáder de Carvalho, realizada em 1981 e recuperada pelo caderno Sábado, em agosto de 1996.

Primeiros passos
Nascido em Quixadá, em 1901, Jáder de Carvalho vivenciou na infância as secas sucessivas, o êxodo rural, os problemas do latifúndio, os crimes políticos, a miséria e a fome. Essa "bagagem" acabaria marcando sua obra na literatura e no jornalismo. Depois dos primeiros estudos em Quixadá, Jáder veio para Fortaleza, estudando no tradicional Liceu do Ceará. Dali, ingressou na Faculdade de Direito, em 1931.

A Esquerda e a prisão
Ainda estudante, Jáder fez sua estréia na imprensa diária, tornando-se um dos mais autênticos discípulos do jornalista João Brígido. Em 1928, fundava o jornal A Esquerda, de tendência socialista. A oposição, aliás, sempre foi sua marca. Defensor das liberdades democráticas, acabou perseguido pelo poder militar. Em 1943, após uma série de críticas a Getúlio Vargas, Jáder foi preso e condenado à prisão pelo Tribunal de Segurança Nacional do Estado Novo. A acusação? Pregar o marxismo.

Colaborador do O POVO
Dois anos depois da prisão, Jáder acabou anistiado. Na época, sua libertação motivou grande manifestação popular, promovida principalmente pelos seus alunos do Liceu do Ceará. Após ganhar a liberdade, foi convidado por Paulo Sarasate a colaborar no O POVO. Durante algum tempo, Jáder escreveu diariamente no jornal. "Era um prato delicioso. Que histórias interessantíssimas, contadas com sabor, originalidade, estilo leve e insinuante", escreveu o jornalista J. C. Alencar Araripe.

Diário do Povo
Já com alguns anos de batente no jornalismo, Jáder criou, em 1947, o Diário do Povo, seu maior feito. O jornal tinha a finalidade declarada de causticar os erros dos governantes e a insensibilidade dos políticos da época. Durante 14 anos, o Diário do Povo circulou numa linha independente e de constante oposição aos poderosos do momento, ajudando inclusive a formar novas gerações de jornalistas. Lúcio Lima, Dorian Sampaio, Deusdete de Sousa, Olavo Sampaio e Eduardo Carvalho estavam entre os jovens jornalistas da época.

Infelicidade
O Diário do Povo deixou de circular em 1961. Em outra entrevista publicada no O POVO, Jáder dizia: "O jornal deixou de circular em 1961, porque o Brasil teve a infelicidade de possuir, como Presidente da República, o maior de seus cretinos: Jânio Quadros. Ele subiu o preço do papel e a vida do jornal se tornou mais difícil porque nós nunca chegávamos a comprar papel diretamente do vendedor". Segundo ele, havia um motivo também de competição: O POVO e Correio do Ceará havia crescido.

Na literatura
A preocupação social que tinha no jornalismo, Jáder levou para a literatura. Na prosa de ficção, escreveu, entre outros Classe Média (1937), Doutor Geraldo (1937), A Criança Vive (1945), Eu Quero o Sol (1946), Sua Majestade, o Juiz (1962) e Aldeota (1963). Ele, porém, se considerava poeta acima de tudo. A estréia aconteceu com a publicação de O Canto Novo da Raça, em 1927, obra com produção de Jáder, Sidney Neto, Franklin Nascimento e Mozart Firmeza.

Modernista
O crítico, professor e escritor Sânzio de Azevedo disse certa vez que o modernismo se iniciou no Ceará através da publicação de "O Canto Novo da Raça". Logo depois deste livro, Jáder participou da eclosão modernista no Ceará, ao lado de Mário Sobreira de Andrade, Demócrito Rocha, Paulo Sarasate, Filgueiras Lima e Rachel de Queiroz. Ele demoraria ainda alguns anos para reunir em volume os poemas dessa fase, aparecendo em 1931 com "Terra de Ninguém".

Especial de TV
Poucos dias após a morte de Jáder de Carvalho, em agosto de 1985, a TV Manchete exibiu o programa "Jáder de Carvalho Especial". Rui Lima e Rosemberg Cariri assinaram o roteiro e a direção do programa, que tinha como fio condutor uma entrevista com Jáder, realizada pouco antes de morrer. Nela, Jáder fala de sua infância, a luta contra os integralistas, suas batalhas através da imprensa, a iniciação e a renúncia ao marxismo. Foi apresentada ainda uma dramatização do poema "Terra Bárbara", feita pelo ator e jornalista Ivonilo Praciano.

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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